Dra. Alessandra Bedin

Sessão 6 de 7 · Dia 2 · Tarde — Pré coffee · 23 de maio de 2026

Desafios da nutrologia feminina: quatro mulheres, quatro consultórios reais

A Dra. Alessandra Bedin abriu a tarde com quatro casos clínicos arquetípicos da mulher no consultório — SOMP, anemia ferropriva, climatério e protocolo hormonal abusivo — e fechou mostrando os 18 trabalhos científicos que a Nutrology Academy levou ao Congresso Europeu de Obesidade.

Nutrologia feminina Casos clínicos SOMP Climatério Ciência
2h12
duração
2
palestrantes
9
pontos-chave
23/05
dia 2 · tarde

Visão geral

Quatro mulheres reais e o que a nutrologia feminina parece de verdade

“O ovário, coitada, é uma vítima.”

— Dra. Alessandra Bedin, sobre a virada de SOP para SOMP — no racional dela, quem estimula é a gordura visceral

A Dra. Alessandra Bedin conduziu uma aula em duas partes. A primeira foi inteiramente clínica: quatro casos arquetípicos de mulheres que aparecem todo dia no consultório, discutidos em formato participativo seguindo o racional ABCDEFS — alimentação, bioquímica, composição corporal, drogas/suplementos, exercício, foco da consulta e sono. Em cada caso, ela demonstrou como explicar bioimpedância, insulinemia e perfil hormonal numa linguagem que a paciente entende, e por que o desafio quase nunca é o diagnóstico — é convencer a mulher a mudar de vida e fidelizá-la a longo prazo.

A segunda parte virou um panorama do trabalho científico da Nutrology Academy junto com a Nutrology Science Hub e o Einstein. Ela apresentou os 18 trabalhos aceitos no European Congress on Obesity de Istambul, comentou o livro de Nutrologia Feminina, os dois novos livros (questões para prova de título e palavras cruzadas) e fez um convite formal para os fellows submeterem trabalhos para o congresso de Menopausa do Rio no final de setembro e começo de outubro.

O tom oscilou entre o clínico didático e o crítico contundente, especialmente no quarto caso — uma paciente de 42 anos com implante de gestrinona, oxandrolona, soroterapia semanal e estatina pra consertar o estrago — usado como gancho para discutir o preço biológico dos protocolos hormonais que estão na moda.

Pontos-chave

O que ficou da tarde

Nove recortes da aula da Dra. Bedin — quatro casos clínicos, três interrupções pedagógicas e o panorama da ciência que a Nutrology Academy entregou em 2026.

Caso 1 — A SOP virou SOMP, e o ovário é vítima

Paciente de 36 anos com ganho de peso, ciclos de 35 a 60 dias, acne mandibular, hirsutismo, fome noturna e exames mostrando insulina alta, HOMA-IR elevado, triglicérides aumentado, TGO/TGP/gama-GT levemente alterados e 17-hidroxiprogesterona normal. Bedin reforçou que a síndrome dos ovários policísticos hoje é tratada como síndrome polimetabólica (SOMP) — o gatilho é a gordura visceral estimulando andrógenos, não o ovário. A 17-OH-progesterona entrou para descartar hiperplasia adrenal congênita não-clássica, que é o diagnóstico diferencial com tratamento totalmente diferente (corticoide).

A fome noturna não é compulsão — é fome

Sobre a paciente do caso 1, Bedin parou a turma quando alguém sugeriu compulsão alimentar: ela não tinha critério para distúrbio alimentar. A fome desesperada à noite era consequência direta de baixa ingesta proteica durante o dia, sono ruim e medo de carboidrato. O corpo estava simplesmente pedindo comida.

Caso 2 — Antes da testosterona, feche a torneira da menstruação

Paciente de 45 anos com fadiga, queda de cabelo, queda de performance, cabelo caindo, ciclos regulares mas com fluxo aumentado e coágulos. Hemoglobina abaixo de 12, RDW alterado, ferritina de 9, saturação de transferrina 9%, PCR positiva. Ultrassom revelou mioma maior e adenomiose. Bedin foi enfática: ninguém deveria prescrever testosterona aí. O tratamento é repor ferro e tratar o sangramento — mioma e adenomiose são a causa, anemia ferropriva é a consequência. Ela lembrou que menstruação é a primeira causa de anemia em mulher, não nutrição.

Pressão arterial elevada não é hipertensão

Quando a turma pulou para o diagnóstico de hipertensão diante de uma 138x86, Bedin corrigiu: pela diretriz brasileira de 2025 isso é pressão arterial elevada — uma faixa intermediária que substitui a antiga pré-hipertensão. O valor sinaliza atenção e intervenção em estilo de vida, mas não fecha diagnóstico de hipertensão arterial.

Como explicar bioimpedância para a paciente

Bedin demonstrou em voz alta o roteiro que ela usa no consultório: o IMC sozinho não fecha conduta porque um homem de 1,80m com 100kg pode estar obeso ou ser atleta puro músculo. O que importa é quanto do peso é músculo versus gordura, a distribuição (visceral vs periférica) e o desequilíbrio entre eles. É a partir daí que ela engancha a paciente em musculação — especialmente quadríceps — explicando que esse músculo é o que vai levantá-la da cadeira, sustentar a cognição e o gasto energético na velhice.

Caso 3 — Climatério e o medo do hormônio

Paciente de 51 anos com aumento de cintura, piora de composição corporal, ciclos de 45 a 90 dias, fogachos, libido baixa, FSH 42 com estradiol 38 — climatério confirmado. Bedin tratou o medo da paciente de hormônio com pedagogia: explicou que dois anos antes e dois anos depois da última menstruação é o pior momento para a composição corporal feminina. Discutiu contraindicações: TVP prévia não contraindica reposição transdérmica (só a oral); câncer de mama contraindica também a testosterona, porque conversão para estradiol existe.

Não comer carboidrato à noite piora o sono e a fome

Bedin atacou o medo do carboidrato noturno: para pacientes que treinam cedo de manhã, manter um carboidrato com proteína antes de dormir estabiliza a glicemia noturna e aproveita a janela anabólica pós-treino, fazendo o paciente acordar com a glicemia mais estável. O noturno simples sozinho não — mas combinado com proteína, sim.

Caso 4 — Implante de gestrinona, oxandrolona e o preço a pagar

Paciente de 42 anos em uso de implante hormonal com gestrinona há 8 meses, 20mg de oxandrolona pela manhã, soroterapia semanal e rosuvastatina 10mg "para consertar o estrago". Apresentou hemoglobina 15,6 com hematócrito 47,2 (poliglobulia franca em mulher), LDL 166, triglicérides 158, Lp(a) positiva, CPK elevada por treino, pressão arterial subindo, acne, queda de cabelo padrão androgênico e irritabilidade. Bedin foi explícita: ela passa hoje mais tempo na consulta desconstruindo do que construindo. O argumento que ela usa com a paciente é a comparação direta com cocaína — também faz se sentir bem, também tem preço. O desafio clínico é acolher sem julgar, esclarecer e oferecer alternativa.

Nutrology Academy levou 18 trabalhos ao ECO 2026

Na segunda parte, Bedin mostrou os 18 trabalhos aceitos no European Congress on Obesity de Istambul — todos os 18 submetidos foram aceitos. Os temas cobriram obesidade visceral, sarcopenia, microbiota intestinal sob análogos de GLP-1, adequação proteica, impacto da terapia hormonal na composição corporal, ICFEP pós-menopausa, lipedema, eflúvio telógeno pós-emagrecimento e medicina de precisão em saúde metabólica feminina. Também anunciou o convite para os fellows submeterem trabalhos ao Menopause do Rio (final de setembro e começo de outubro) e os dois novos livros em produção: o livro-base para prova de título e o livro de palavras cruzadas da Nutrologia.

Conceitos

Glossário rápido da sessão

Oito termos clínicos e nomenclaturas atualizadas que apareceram na discussão e merecem definição clara.

SOMP

Síndrome (dos Ovários com manifestação) Polimetabólica — nova nomenclatura para a antiga síndrome dos ovários policísticos (SOP), que reposiciona o quadro como doença metabólica sistêmica e não apenas ovariana.

ABCDEFS

Roteiro de anamnese usado pelo Fellowship: Alimentação, Bioquímica, Composição corporal, Drogas e suplementos, Exercício, Foco da consulta e Sono.

HOMA-IR

Índice calculado a partir de glicemia e insulina de jejum que estima resistência insulínica antes de a glicose estar alterada.

17-OH-progesterona

Marcador usado para descartar hiperplasia adrenal congênita não-clássica, principal diagnóstico diferencial de hiperandrogenismo leve sem causa ovariana.

Pressão arterial elevada (PAE)

Categoria intermediária definida pela diretriz brasileira de 2025, entre normal e hipertensão; substitui a antiga pré-hipertensão.

Adenomiose

Presença de tecido endometrial na musculatura do útero; sua principal complicação é o sangramento uterino aumentado, frequentemente subdiagnosticado como causa de anemia ferropriva.

ICFEP

Insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, mais prevalente em mulheres pós-menopausa e foco de várias linhas de pesquisa do grupo.

Lipoproteína(a)

Fator de risco cardiovascular hereditário; quando positiva, soma-se a outros marcadores no cálculo de risco e pesa na decisão de iniciar estatina.

Citações

Frases que sintetizam a tarde

“O grande desafio dessa mulher não é fazer ela perder peso. É fazer ela manter e mudar de estilo de vida para que não haja o reganho, para que ela tenha a intenção de continuar com você, fidelizando.”

— Dra. Alessandra Bedin

“Eu passo hoje mais tempo na minha consulta desconstruindo do que construindo algo legal.”

— Dra. Alessandra Bedin

“Eu também me sentiria muito bem usando cocaína. É a mesma coisa. A questão é: você usaria cocaína?”

— Dra. Alessandra Bedin, sobre como confrontar protocolos hormonais abusivos

“Se você tá esclarecido e quer continuar assim, ok. Eu não vou prescrever. Mas eu vou te acolher. A vítima aqui não é você que tá pegando o paciente, é o próprio paciente.”

— Dra. Alessandra Bedin

Sobre a sessão

Quem conduziu a tarde e o que ficou pra depois

Uma aula sobre o que a nutrologia feminina parece de verdade no consultório — não o protocolo de moda, mas a paciente real, com medo de carboidrato, medo de hormônio e expectativas distorcidas pela internet.